Qi Gong: História

QI GONG

Qi Gong é uma arte surgida na China há no mínimo três mil anos, que tem como base histórica a Medicina Tradicional Chinesa (MTC), aliada à diversas linhas da filosofia oriental. Assim como ocorre em outras artes, também o Qi Gong se manifesta de diversas formas e é praticado para diferentes propósitos: há, por exemplo, o Qi Gong marcial, que se volta ao desenvolvimento de resistência física e de habilidades de combate; o Qi Gong intelectual, voltado exclusivamente ao desenvolvimento da inteligência e capacidade mental; e o Qi Gong religioso, que é empregado por diferentes religiões em seus rituais e práticas.

Nossos cursos se concentram no Qi Gong terapêutico, cujo propósito fundamental é a promoção do bem estar. Em menor grau, empregamos também técnicas das demais linhas – também utilizamos sequências do Qi Gong marcial para promover resistência óssea e muscular, bem como melhorar o equilíbrio motor e a consciência corporal, e também nos valemos do Qi Gong intelectual para promover clareza mental e aprimorar a capacidade de raciocínio e de memorização.

DEFINIÇÃO

Por questão de costume e simplicidade a palavra “Qi” (气 ou 炁) é usualmente traduzida por “energia“, porém seu sentido vai muito além dessa acepção. “Qi” se refere à informação de qualquer natureza – desde uma expressão facial que transmite certo sentimento ou um modo de caminhar que reflete nosso estado mental, até um impulso elétrico nos nervos ou a informação genética contida no DNA. O termo significa, também, uma pequena estrutura sutil que, quando condensada, se torna fisicamente perceptível – semelhante a um átomo, por exemplo. De acordo com a teoria do Qi , não há diferença entre mente, onda e matéria: tudo é “Qi” em diferentes variações e estados de densidade.

“Gong” (功) se refere à cultura e ao cultivo, à disciplina, à consciência, e também ao treinamento dos quatro princípios fundamentais (postura e movimento; respiração; emoção; meditação e consciência). De modo amplo, “Gong” designa qualquer habilidade adquirida por meio de longa prática.

Dessa forma, “Qi Gong” é “o treinamento de cultivo e consciência do Qi“, e praticar Qi Gong significa cultivar a energia por meio da prática constante, ou, alternativamente, a habilidade de trabalhar a energia do corpo. Cabe notar que a expressão “Kung Fu” (Gong Fu) usa a mesma palavra (功夫) que Qi Gong (气功), pois nos dois casos o foco é a prática e o cultivo.

Ao cultivar e interagir com essa forma de “energia/informação”, o praticante desenvolve sua qualidade de vida e adquire ferramentas que contribuem para sua autorrealização em diversas esferas. Uma variedade de pesquisas científicas têm comprovado a eficácia dessa prática no que diz respeito à saúde humana. Na China, o Qi Gong é empregado como programa terapêutico preventivo de baixo custo, e essa prática também se inclui nos sistemas de saúde da Alemanha, França e Suíça. Seus principais benefícios são:

  • relaxamento e alívio do estresse e ansiedade
  • tratamento de insônia e depressão
  • mitigação da dor
  • promoção de estabilidade emocional
  • equilíbrio entre corpo, mente e vontade
  • fortalecimento do sistema imunológico
  • melhora no funcionamento dos sistemas digestivo, respiratório e cardíaco
  • aumento do desempenho físico-esportivo
  • maior consciência corporal
  • contribuição à capacidade de raciocínio
  • melhoramento da memória
  • autoconhecimento, incluindo conhecimento do próprio corpo
  • desenvolvimento da capacidade pulmonar

Tais resultados, acompanhados da disciplina, do autocontrole e do autoconhecimento desenvolvidos pela prática constante de Qi Gong, estendem-se para além do treino e inegavelmente contribuem de forma positiva para quaisquer outras atividades que pratiquemos.


BREVE HISTÓRIA DO QI GONG            

A história do Qi Gong se estende por vários milênios. Já na época Yao (entre 2356–2255 a.C.) tinha-se o conhecimento que a prática da dança melhorava a resistência imunológica contra doenças. Os ancestrais do povo chinês perceberam que determinados movimentos do corpo, formas de respiração e sons emitidos podiam regular algumas funções do corpo. Por exemplo: ao esticar os membros refrescava-se o corpo e, ao encolhê-los, a temperatura do corpo era preservada ou aumentava; ao emitir o som “ha”, o calor e a tristeza eram eliminados, e o som “xü” ajudava a reduzir dores.

Com o passar dos séculos e o aumento dos registros arqueológicos, pôde-se ter uma visão melhor da presença do Qi Gong nas sociedades daquela época. Durante a dinastia Zhou (1045 –256  a.C.) o fundador lendário do taoísmo, Lao Zi (Lao Tsé), deixou anotações sobre métodos de respiração. Outro adepto do taoísmo, Zhuang Zi (Chuang Tsé), posteriormente registrou que certas técnicas respiratórias contribuíam para o prolongamento da vida. Registros de técnicas semelhantes fora da China também puderam ser encontrados, como entre os iogues e ascetas hindus.

Xing Qi Yu Pei Ming (770 a.C. – 221 a.C.) – um artefato de jade onde estão inscritas certas teorias e técnicas de Qi Gong -, é bastante esclarecedor quanto à importância da harmonia entre o ser humano e natureza. Já o livro denominado Que Gu Shi Qi Pian, do início da dinastia Han (206 a.C. – 220 d.C.), expõe algumas técnicas apropriadas para se guiar o Qi, e exibe 44 desenhos em seda ilustrando canais do corpo em que o Qi flui. Além disso, o livro em questão demonstra que o ensino do Qi Gong enquanto sistema organizado teria se iniciado já naquela época.

No primeiro compêndio da medicina tradicional chinesa (compilado por volta de 700 a.C.), Huang Di Nei Jing (“O clássico de medicina interna do Imperador Amarelo”), estão descritas teorias, técnicas e benefícios do Qi Gong. Essa síntese ensina, por exemplo, que se pode prevenir certas doenças ao permanecer relaxado e com a mente em estado de “vazio-nada”. Um outro exemplo: pessoas com patologias nos rins poderiam treinar o Qi Gong entre 3 e 5 horas da manhã, da seguinte maneira: posicionar-se de frente para o sul, mantendo o corpo relaxado; em seguida, inspirar profundamente e segurar a respiração, pressionando, ao mesmo tempo, o Dan Tian. O exercícios seria repetido por sete vezes e, ao final dele, deveria-se engolir a saliva. Embora bastante simbólico e imagético, o Huang Di Nei Jing é particularmente valioso por fundamentar técnicas de Qi Gong no sistema da medicina tradicional chinesa.

Ao longo da história da medicina tradicional chinesa, inúmeros médicos foram também mestres de Qi Gong e usavam essa arte como forma de tratamento para doenças. Um destes (o famoso médico e cirurgião Hua Tuo, da dinastia Han, 206 a.C. – 220 d.C.), criou uma nova técnica de Qi Gong, associada a características de cinco animais (macaco, urso, tigre, pássaro e veado), que é praticada até os dias de hoje sob o nome Wu Qin Xi. Outro eminente médico da época, Zhang Zhong Jing, autor do célebre livro Shang Han Lun, também descreveu a técnica de guiar os meridianos por meio da respiração, ao lado da acupuntura e massagem, como um método para eliminar edemas em membros inferiores.

Na dinastia Jin (265 d.C. – 420 d.C.), o médico Ge Hong, em seu livro Pao Pu Zi, afirma que os diversos movimentos do corpo e a respiração guiam meridianos para nutrir o Qi interno e eliminar agentes patógenos externos.

Nos séculos seguintes, médicos ilustres continuaram a descrever e a recomendar a prática de Qi Gong em suas obras sobre a medicina tradicional chinesa. Por exemplo: na dinastia Shui (581 d.C. – 618 d.C.), pode-se citar o médico Chao Yuan Fang; na dinastia Tang (618 d.C. – 907 d.C.), o também afamado médico Sun Si Miao; e, mais tarde, os dez renomados médicos da dinastia Jing (1115 d.C. – 1234 d.C.).

Li Shi Zhen, o grande médico da dinastia Ming (1368 d.C. – 1644 d.C.), enfatizou em seu livro Qi Jing Ba Mai, a importância do treino de Qi Gong por médicos acupunturistas, a fim de que pudessem compreender e sentir os meridianos na prática, e não apenas pela teoria.

No período moderno inicial da história da China, intelectuais sugeriram a prática de Qi Gong e meditação em vários livros e publicações.

Após a proclamação da República Popular da China, houve o surgimento de uma grande quantidade de novas sequências de Qi Gong, com base em técnicas anteriores. Em 1955 foi fundado o primeiro Instituto de Terapia de Qi Gong, onde pacientes internados exercitavam-se em diferentes técnicas e onde a prática era acompanhada por exames clínicos ligados à medicina ocidental. Em 1959, foi realizado o 1º Congresso Nacional de Qi Gong, com a participação de 64 entidades das 17 províncias chinesas. Em 1970, o Qi Gong alcançou grande popularidade e começou a influenciar outras áreas, como prática interdisciplinar. Foi estudado em física, química, biologia, nas artes, e nos esportes.

Um congresso especial de Qi Gong ocorreu em 1979, reunindo representantes do Ministério de Saúde, da Comissão Científica Chinesa e do Ministério de Esporte. O evento atraiu a atenção da comunidade médica e jornalística internacional, promovendo a divulgação do Qi Gong.

Durante esse período, a pesquisa sobre o Qi Gong se caracteriza por abordar, principalmente, dois aspectos:

  1. Aplicação do Qi Gong no cotidiano e estudo de seu mecanismo funcional (por exemplo, em relação à hipertensão e à doença cardiovascular causadas pelo estresse da vida moderna, o relaxamento promovido pelo Qi Gong pode reduzir a atividade do sistema nervoso simpático, diminuir a quantidade de ácido lático no sangue, diminuir o metabolismo e, conseqüentemente, baixar a pressão arterial sistêmica).
  2. Pesquisa sobre o “caráter material do Qi”, que leva a questões como: O que é Qi? Qual a função do Qi? (a esse respeito, por exemplo, o médico Feng Li Da, do Instituto da Medicina Tropical de Pequim, relatou que em experimento o Qi combateu bactérias E.coli (69%) e B.dysenteriae (87%); outro estudo comprova que o Qi Gong aumenta a imunidade. Por sua vez, Gu Han Sen e Lin Hou Sheng, do Instituto da Medicina Chinesa de Shanghai, demonstraram que certas formas de Qi podem ser verificadas em laboratório como irradiação infravermelha). Desde então, diferentes metodologias vêm sido aplicadas e revistas no estudo do Qi.

Em 1994 o curso de Qi Gong passou a integrar o currículo de formação médica em grande parte das universidades de medicina tradicional na China. O número de praticantes de Qi Gong na China é grande, e a popularidade dessa arte tem crescido em escala mundial.

A expectativa em torno da contínua pesquisa e estudo do Qi Gong é que, por intermédio dessa arte, determinem-se meios para promover maior qualidade de vida no âmbito do estilo de vida moderno.

Autor: Cao Yinming; еdição: Matheus De Pietro