Tradução: “Discussão sobre os trigramas”, de Confúcio

(Artigo inicialmente publicado em 9/5/2017na versão anterior desta página)

Os oito trigramas, também chamados de ba gua, são conceitos tão importantes ao pensamento chinês quanto as noções de yin yang. A teoria dos oito trigramas diz que, a partir da interação entre as duas forças primordiais da natureza – o yin e o yang –, estabelecem-se oito arquétipos da manifestação da energia do mundo.

Disposição tradicional dos oito trigramas,
chamada de “ba gua do céu anterior

Esses arquétipos são representados por trigramas – símbolos construídos por três linhas, representando as três dimensões fundamentais da nossa vida: terra, céu e humanidade.

O fato desses conceitos serem considerados representações da maneira como a energia se manifesta levou chineses antigos a interpretarem suas experiências no mundo sob a lente dos oito trigramas. É possível encontrar registros antigos descrevendo associações do ba gua aos oito sábios lendários da China, por exemplo, bem como aos membros de uma família, aos papeis sociais chineses tradicionais, aos pontos cardeais, e às estações do ano. Isso porque cada um dos trigramas alude a uma certa maneira do qi se expressar – uma personalidade, por assim dizer –, e diferentes fenômenos do mundo podem ser vinculados a esses conceitos de acordo com seu contexto e suas suas características intrínsecas.

Traduzo a seguir uma parte do texto Discussão sobre os trigramas (Shuo gua), de Confúcio. Nele o filósofo oferece sua interpretação acerca desses oito símbolos e procura explicar os principais elementos que constituem cada um deles. Apesar de breve, esse texto é ainda hoje considerado uma das principais fontes para o estudo da teoria do ba gua.


"Em tempos antigos, quando os sábios compilaram o <Zhou> Yi, agiram de maneira que fosse seguida a lógica imanente ao destino e à natureza das coisas, quer dizer: de acordo com os princípios do céu, chamados de yin e yang; com os princípios da terra, chamados de suavidade e rigidez; e com os princípios do ser humano, chamados de benevolência e justiça. Cada trigrama consiste na união dessas três dimensões e, quando duplicados na técnica do <Zhou> Yi, resultam em uma figura de seis linhas denominada "hexagrama". Por meio da diferenciação entre o yin e o yang, apresentados, em diferentes pontos, de maneira suave ou rígida, o <Zhou> Yi estabelecia as seis posições e completava a composição do hexagrama.

As imagens do céu e da terra têm posições fixas. As montanhas e os lagos transportam o qi. O trovão e o vento se incitam mutuamente ao movimento. A água e o fogo não agridem um ao outro. Os oito trigramas, portanto, dispõem-se de maneira antagônica entre si.

O registro do passado é um movimento como o fluir adiante de acordo com um rio, e o conhecimento sobre o futuro é como caminhar de encontro ao que está por vir. Por esse motivo, o <Zhou> Yi abrange tanto o princípio de confrontar <o futuro> como o de ceder <ao passado>.

O trovão tem a função de colocar as coisas em movimento; o vento de as dispersar.
A chuva tem a função de resfriar e umedecer; o sol, de secar e trazer à luz.
A função da montanha é conter e obstruir, e a do lago é permitir a comunicação.
O céu coloca as coisas em ordem, e a terra a tudo sustenta e armazena.

A divindade se manifesta mais claramente no Relâmpago; ela distribui ordens no Vento; torna-se visível e expressa beleza no Fogo; sustenta e serve na Terra; conversa e se alegra no Lago; combate no Céu, esgota-se no Rio, e atinge a completude na Montanha.

Todas as coisas são levadas a se manifestar [para fora] no Relâmpago, que é posicionado ao leste. Tudo se organiza no Vento, localizado ao sudeste. "Organizar-se", aqui, significa determinar a medida e a proporção de todas as coisas. Já o conceito de "Fogo" está associado ao fulgor e à iluminação, que permite que a beleza das coisas seja visível a todos, sendo, pois, o trigrama do sul – os sábios, ao ouvirem os costumes do mundo, voltavam-se ao sul* a fim de liderar de acordo com a clareza e o entendimento. Foi precisamente esse conceito que originou tal costume. **

A "Terra" se refere ao solo, que a todos sustenta e que é onde todas as coisas crescem. Foi por esse motivo que disse que a solicitude e o sustento partem da Terra. Já o Lago está associado ao alto outono, quando todas as coisas encontram sua alegria. E por isso disse que a conversa e a alegria partem do Lago.

O conflito se associa ao trigrama do Céu, cuja direção é o nordeste, pois é o momento em que o Yin e o Yang combatem um ao outro. O "Rio" diz respeito à água, e é o trigrama colocado precisamente na direção norte. Sendo ele o trigrama relacionado ao esforço e ao trabalho, também é onde todas as coisas encontram seu descanso e para onde eventualmente retornam. Por isso, disse anteriormente: "O Rio é onde <tudo> se esgota". A Montanha é o trigrama colocado a nordeste. Nela, tudo encontra seu fim e sua completude. Nela, também, é onde os fins encontram novos recomeços. É por isso é que disse: "Na Montanha, alcança-se o fim".

Quando digo "espírito divino" (shen), refiro-me ao sutil esplendor imanente a todas as coisas. Para colocá-las em movimento, nada é mais violento do que o trovão. Para dispersá-las, nada mais veemente do que o vento.
Para secar todas as coisas, nada há de mais cáustico do que o fogo. Para alegrar a todos, nada mais sedutor do que o lago. Para umedecer, não há nada mais úmido do que a água. Para trazer todas as coisas aos seus fins e para lhes dar um novo começo, não há nada mais pleno do que a montanha.
É por causa disso tudo que a água e o fogo se complementam; é por isso que o trovão e o vento não estão em oposição, e é por isso que as montanhas e os lagos cambiam seu Qi mutuamente.

Por meio desses processos, <os referidos trigramas> são capazes de produzir mudanças e transformações e, consequentemente, engendrar todas as coisas.

O Céu representa a força; a Terra, a passividade. O Relâmpago representa o movimento; o Vento, a penetração. O Rio representa as profundezas; o Fogo, a beleza exterior. A Montanha representa o impedimento; o Lago, a comunicação [...]."

*. Devido à sua posição no hemisfério superior do planeta, o sul, na China, é a direção que mais recebe calor e iluminação do Sol (por exemplo, uma casa chinesa com janelas voltadas para o norte receberá pouca luz natural durante o dia).
 
**. Imperadores chineses, por tradição, tinham seus tronos voltados ao sul.

Yi, ou Zhou Yi, era o nome antigo do que hoje chamamos de Livro das Mutações.


A teoria dos oito trigramas (ba gua) é claramente ampla demais para que a possamos resumir em um único texto. O que nos importa, aqui, é observar como essa forma de pensar se dava na Antiguidade.

Como diz Confúcio, os fenômenos do mundo ocorrem em modo de dualidade e sempre apresentam um oposto que os complementam. O movimento, por exemplo, pode ser suave (Vento) ou violento (Relâmpago); a disposição da energia pode ser receptiva (Terra) ou imponente (Céu); sua manifestação e seus atributos podem ser externos (Fogo) ou internos (Água); seu acúmulo pode ser rígido (Montanha) ou fluido (Lago), ascendente (Montanha) ou convergente (Lago), silencioso (Montanha) ou loquaz (Lago), solitário (Montanha) ou comunitário (Lago).

Os oito trigramas são, de fato, uma expansão dos princípios fundamentais do Yin e do Yang. Como mencionei anteriormente, essa maneira de pensar pode ser encontrada em aplicações a diferentes áreas do pensamento chinês, incluindo no campo da medicina tradicional chinesa, que encontra o ba gua desde em sua teoria dos cinco elementos até na tese dos oito critérios diagnósticos (ba gang) e nos vasos extraordinários (qi jing ba mai), que complementam os meridianos tradicionais da acupuntura.


FONTE

Confúcio, Discussão sobre os trigramas 2-10 (~500 a.C.):

昔者聖人之作易也,將以順性命之理,是以立天之道曰陰與陽,立地之道曰柔與剛,立人之道曰仁與義. 兼三才而兩之,故易六畫而成卦. 分陰分陽,迭用柔剛,故易六位而成章.

天地定位,山澤通氣,雷風相薄,水火不相射,八卦相錯。數往者順,知來者逆,是故易逆數也.

雷以動之,風以散之,雨以潤之,日以烜之,艮以止之,兌以說之,乾以君之,坤以藏之.

帝出乎震,齊乎巽,相見乎離,致役乎坤,說言乎兌,戰乎乾,勞乎坎,成言乎艮. 萬物出乎震,震東方也. 齊乎巽,巽東南也,齊也者、言萬物之絜齊也. 離也者、明也,萬物皆相見,南方之卦也. 聖人南面而聽天下,嚮明而治,蓋取諸此也. 坤也者、地也,萬物皆致養焉,故曰:致役乎坤. 兌、正秋也,萬物之所說也,故曰:說言乎兌. 戰乎乾,乾、西北之卦也,言陰陽相薄也. 坎者、水也,正北方之卦也,勞卦也,萬物之所歸也,故曰:勞乎坎. 艮、東北之卦也. 萬物之所成終而所成始也. 故曰:成言乎艮.

神也者、妙萬物而為言者也. 動萬物者莫疾乎雷,橈萬物者莫疾乎風,燥萬物者莫熯乎火,說萬物者莫說乎澤,潤萬物者莫潤乎水,終萬物、始萬物者、莫盛乎艮. 故水火相逮,雷風不相悖,山澤通氣,然後能變化,既成萬物也.

乾,健也;坤,順也;震,動也;巽,入也;坎,陷也;離,麗也;艮,止也;兌,說也.