(Artigo inicialmente publicado em 30/9/2016, na versão anterior desta página)
O estilo Yi Fa adota um metódo integrativo de treinamento, de modo que, em todas as técnicas e sequências de exercícios, trabalhemos todas as dimensões do corpo: física, respiratória, mental e emocional.
A convergência desses fatores potencializa o resultado do exercício, quer dizer: o benefício obtido não é apenas o de um alongamento, apenas de uma meditação, ou apenas de uma massagem ou de um relaxamento, mas sim de tudo isso junto. À sistematização desse conceito damos o nome de “Quatro Aspectos”, e cada um deles tem suas particularidades:
Postura e movimento
Esse aspecto diz respeito aos elementos mais físicos da prática. Durante os exercícios devemos sempre manter a postura adequada, seja em pé, seja sentada, seja deitada. Isso implica, por exemplo, manter a coluna alongada e o restante do corpo alinhado de acordo. Também signfica que os músculos devem estar relaxados, pois uma musculatura rígida ou uma tensão muscular constante prejudicam o fluxo de Qi.
Além disso, devemos ajustar regiões específicas do corpo de modo a facilitar ainda mais circulação de Qi – por exemplo, manter a coluna cervical alongada, o quadril encaixado e, conforme discutido em aula, atentar especialmente à conexão entre os pontos huiyin, yinjiao e chengjiang.
O “movimento” diz respeito à fluidez do exercício. Devemos procurar realizar os movimentos de modo suave, contínuo, e sem interrupções. Movimentos bruscos, angulares e em staccato geram desperdício de energia – assim como em um carro: freadas constantes gastam mais combustível, e uma curva a 90° o faria desacelerar e danificaria os pneus, ao passo que uma curva mais arredondada permite que o carro siga sem impedimento, sem causar estresse em sua estrutura. Devemos, então, preferir movimentos circulares e concatenados, realizados com atenção e tranquilidade.
Resumindo, trata-se de princípios taoístas aplicados à prática física: promover a fluidez, evitar o desperdício desnecessário de Qi, e manter a unidade de todo o conjunto.
Respiração
A respiração é um dos principais meios que usamos para direcionar o Qi durante os exercícios. Devido à natureza da respiração, nosso corpo automaticamente a associa com os processos de absorção e eliminação de Qi, com a contração e a expansão, acúmulo e projeção. Por exemplo, mesmo sem experiência alguma em Qi Gong, nunca levantamos algo pesado inspirando, mas apenas retendo ou soltando ar. Quando empurramos, ao contrário, automaticamente expiramos. Da mesma maneira, quando nos assustamos, inspiramos rapidamente, em vez de expirar. Quando subimos uma montanha e vemos uma bela paisagem, inspiramos profundamente. Quando estamos muito cansados, inconscientemente expiramos mais alongadamente.
Nossa respiração está intimamente ligada à nossa saúde e ao nosso estado emocional. Temos as expressões populares “soluçar de tristeza”, “respirar aliviado” e “respirar fundo”. Quando estamos ansiosos, nossa respiração se torna superficial. Quando abraçados com uma pessoa amada, suspiramos. Mesmo o sentimento de “angústia” é uma sensação de “aperto” no peito (angustia, em latim, se traduz por “aperto e estreitamento”). Isso tudo mostra que há, de fato, uma conexão entre nossos estados físico e mental e nossa respiração.
Mas essa é uma via de duas mãos e, ajustando a respiração de acordo, podemos influenciar nossa saúde e nosso estado emocional positivamente.
Por esse motivo, o segundo aspecto do Qi Gong recomenda que respiremos de maneira consciente, inspirando ou expirando mais de acordo com a necessidade (isto é, a fim de direcionar o exercício mais para um tom Yin ou Yang), e sempre coordenando o ciclo de respiração com o exercício em questão (por exemplo, expirando em movimentos expansivos e inspirando em contrações).
A respiração, portanto, deve ser natural e consciente, porém sem esforço. Tipos específicos de respiração (voltadas ao relaxamento, agitação e controle da pressão, por exemplo) também podem ser usados de acordo com a circumstância.
Emoção
O terceiro aspecto diz respeito ao estado emocional ideal para a prática de Qi Gong. Durante o treino, é imporante que não estejamos precupados com assuntos secundários. Quer dizer: não importa se máquina já terminou de lavar roupa, se você tem uma reunião hoje à tarde, ou se acabou de receber uma mensagem pelo telefone: nesse pouco tempo separado para os exercícios, reservamos nossa atenção exclusivamente à prática (a menos, é claro, que haja alguma emergência externa).
O mesmo vale para outros tipos de distração: quando treinamos (em público, por exemplo), não devemos nos prender a julgamentos como “essa a roupa está feia” ou “meu cabelo se despenteou”. Isso porque, se estamos pensando nessas coisas, significa que não estamos usando a totalidade da nossa consciência para o nosso exercício, e ao final seu resultado será menor.
Resumindo: o terceiro aspecto pede que mantenhamos um senso de presença e atenção àquilo que estamos fazendo, e que não deixemos a mente se desviar por preocupações e gatilhos emocionais.
Meditação
A “meditação” se refere à concentração necessária para o exercício. Nossa consciência deve acompanhar cada movimento e coordenar a respiração e as posturas de modo natural, sem ser forçada. Além disso, esse aspecto também se refere ao “estado de Qi Gong” e ao “estado de meditação” (虚无) – dois estados mentais que surgem espontaneamente durante a prática de Qi Gong, e que permitem que nosso Qi flua de modo mais puro e eficiente (no primeiro caso), e que nossa mente entre em estado de vazio e se conecte com uma dimensão mais sutil do universo (no segundo caso).
O aspecto meditativo do Qi Gong, portanto, diz respeito ao foco correto da consciência durante as sequências de exercícios.
Quatro Aspectos em conjunto
Um dos pilares fundamentais do Yi Fa Qi Gong é a importância dada à qualidade da prática, não tanto à quantidade. Aplicado em termos concretos, esse princípio se traduz (entre outras maneiras) como os Quatro Aspectos.
Através dos Quatro Aspectos, podemos obter resultados positivos mesmo com uma técnica simples, de apenas alguns minutos, pois ela terá sido realizada com todas as partes do nosso ser agindo em uníssono, quer dizer: com o corpo e a mente calmos e relaxados, com o emocional direcionado ao momento presente, e com a respiração adequada aos movimentos e às circumstâncias.
No longo prazo, a atitude integrativa que esse método procura cultivar no praticante também pode ser transferida para outras áreas da vida. Com a prática regular, é natural que também passemos a aplicar os quatro aspectos em nosso trabalho e no dia a dia em geral.