O imperador pergunta: por que vivemos tão mal?

(Artigo inicialmente publicado em 8/10/2016, na versão anterior desta página)

O Clássico de Medicina Interna do Imperador Amarelo (Huang Di Nei Jing; 黄帝内经), ou Nei Jing, é a obra mais importante de todo o cânone da medicina tradicional chinesa. Esse sistema terapêutico continuou a ser desenvolvido e aprimorado nos milênios seguintes, porém o Nei Jing é a obra que primeiro delineia as bases teóricas da acupuntura, propõe princípios de tratamento, e sistematiza uma série de teorias médicas e filosóficas sobre o Qi e a saúde humana.


A obra foi escrita por volta de 300 a.C., e consiste em um diálogo entre o Imperador Amarelo (um regente lendário chinês), e Qi Bo, um médico de grande conhecimento. O livro faz uso intenso de simbologia (por exemplo, “primaveras e outonos” para querer dizer “anos de vida”), e é um misto de obra filosófica e tratado técnico. O imperador é apresentado como uma pessoa curiosa, interessada em compreender como mundo funciona e como podemos viver melhor. Ao longo do livro ele questiona o mestre Qi Bo sobre assuntos diferentes, e por meio dessas conversas podemos aprender bastante sobre a visão de mundo da época.

Traduzo aqui as primeiras linhas do livro, que começa com uma pergunta: “por que hoje em dia vivemos tão mal?”
Esse início do texto é interessante porque mostra que, mesmo naquela época – há 2300 anos atrás -, já havia a percepção de que nossa sociedade não é mais tão equilibrada como a dos nossos antepassados. Por que muitos jovens de hoje têm doenças que nossos avós só tiveram no fim da vida? Por que nossa relação com a natureza nos parece tão destrutiva? Os problemas que o imperador tenta resolver são parecidos com os nossos. As soluções, por causa disso, também são eficazes para os nossos próprios problemas modernos:


"Em tempos antigos havia o Imperador Amarelo. Logo após nascer, demonstrava uma vivacidade sobrenatural. Aprendeu a falar quando ainda pequeno e frágil. Quando jovem, compreendia assuntos novos rapidamente. Quando adulto, era sincero e de pensamento ágil. E, ao fim de sua vida, ascendeu ao céu.
 
Tal era o indivíduo, pois, que agora indagava ao extraordinário mestre [isto é, ao médico Qi Bo]:
 
“Eu ouvi dizer que, em tempos muito antigos, a vida de todas as pessoas ultrapassava 100 primaveras e outonos. Apesar disso, não sentiam declínio em sua capacidade de trabalhar ou de se movimentar. Hoje, depois dos 50 anos de idade todos já estão sentindo dificuldade de trabalhar ou de se movimentar. Isso acontece porque estamos em uma era diferente? Ou é porque o ser humano perdeu essa habilidade?”
 
Qi Bo responde: “As pessoas da Antiguidade distante compreendiam o Tao. Elas se orientavam pelo Yin e pelo Yang, e se mantinham em harmonia por meio das artes e dos princípios [da natureza].
Comiam e bebiam de modo regrado, dormiam e acordavam em intervalos regulares, e não se desgastavam com trivialidades. Por causa disso, eram capazes de manter seu corpo e seu espírito unidos e, para exaurir todo o tempo de vida que lhes era determinado pelo céu, ultrapassavam os 100 anos antes de partir.
 
As pessoas da nossa era, contudo, são diferentes. Elas bebem álcool como se fosse suco, passam a maior parte do tempo perseguindo trivialidades, estão intoxicadas já quando chegam em casa, esgotam sua vitalidade com desejos sem fim, e dissipam sua energia com seus desperdícios – nunca se sentem satisfeitos, e nunca são capazes de domar seu espírito. Apressam-se em saciar os caprichos de seus corações, e assim se distanciam da alegria da vida. Dormem e acordam sem constância alguma. Por causa de tudo isso, aos 50 anos já estão fracos e debilitados.

Na Antiguidade distante, os sábios educavam aqueles que estavam em situação inferior. Eles falavam sobre os males que invadem pelo exterior em caso de fraqueza do organismo, e sobre as estações em que eles devem ser evitados. Falavam sobre a tranquilidade e a alegria do estado de vazio-nada (虚无), e sobre o Qi Verdadeiro (真气) que a elas se segue. Pois quando a vitalidade (精) e a mente são protegidas e preservadas, que doença pode nos afligir?
 
Por resguardarem suas mentes, tinham poucos desejos. Seus corações eram tranquilos e não tinham nada a temer. Seus corpos eram capazes de trabalhar sem se cansar. Por atenderem ao Qi, ele podia fluir; todas as suas necessidades eram satisfeitas, e todos tinham o que almejavam. Por causa disso, seus alimentos lhes eram agradáveis, suas roupas lhes satisfaziam, os costumes populares lhes alegravam, e os nobres e a plebe não cobiçavam as posses e o status um do outro. Por esses motivos é que se pode dizer: aquele era um povo puro e simples (朴).
 
Não chegavam ao ponto de cansar seus olhos se entregando à cobiça, nem de confundir seus corações mergulhando em excessos. Nem os tolos, nem os sábios, nem os virtuosos, e nem os maus exemplos tinham motivo algum a temer. Por esses motivos, estavam em harmonia com o Tao.""

FONTE:

Nei Jing 1.1

昔在黄帝,生而神灵,弱而能言,幼而徇齐,长而敦敏,成而登天。
迺问于天师曰:余闻上古之人,春秋皆度百岁,而动作不衰;今时之人,年半百而动作皆衰者,时世异耶,人将失之耶?
歧伯对曰:上古之人,其知道者,法于阴阳,和于术数,食饮有节,起居有常,不妄作劳,故能形与神俱,而尽终其天年,度百岁乃去。今时之人不然也,以酒为浆,以妄为常,醉以入房,以欲竭其精,以耗散其真,不知持满,不时御神,务快其心,逆于生乐,起居无节,故半百而衰也。
夫上古圣人之教下也,皆谓之虚邪贼风,避之有时,恬惔虚无,真气从之,精神内守,病安从来。是以志闲而少欲,心安而不惧,形劳而不倦,气从以顺,各从其欲,皆得所愿。故美其食,任其服,乐其俗,高下不相慕,其民故曰朴。是以嗜欲不能劳其目,淫邪不能惑其心,愚智贤不肖不惧于物,故合于道。