(Artigo inicialmente publicado em 11/6/2016, na versão anterior desta página)
Sabemos, por experiência pessoal, que a prática da meditação pode promover estabilidade emocional, deixar a mente mais clara, facilitar a condução de raciocínios complexos, e melhorar nossa capacidade de concentração e memorização. Mas quanto dessas experiências encontra correspondência com evidências objetivas observadas em estudos científicos? Pesquisas conduzidas nas últimas décadas apontam para resultados convergentes nesse sentido. Acho que será interessante comentar um pouco sobre algumas delas, de maneira resumida:
NEUROQUÍMICA
O que se sabe com certeza sobre a meditação é que sua prática produz resultados visíveis em um exame neurológico.
O que se sabe
Um dos resultados mais bem analisados da meditação é o fato de que sua prática leva à produção do hormônio serotonina. Essa substância está associada à sensação de bem-estar e autoestima, e é de tal maneira importante para a manutenção de uma mente saudável que medicamentos voltados para o tratamento da ansiedade e da depressão costumam conter reguladores desse hormônio.
O que isso significa
Por conta também desse mecanismo, a meditação facilmente produz uma sensação de bem-estar no praticante, trazendo todos os benefícios associados um nível saudável desse hormônio. Além disso, considerando que a autoestima comprovadamente influencia diferentes aspectos da vida de um indivíduo, incluindo no que diz respeito à sua performance em atividades físicas e mentais, à qualidade de seus relacionamentos e à facilidade de seu aprendizado, é possível concluir que a meditação é uma atividade com grande potencial para a promoção de nossa qualidade de vida.
ALTRUÍSMO
Também associada a um nível relativamente alto de serotonina no cérebro está a capacidade de se colocar no lugar de outra pessoa.
O que se sabe
Um estudo de 2010 (seguido por outros semelhantes nos anos seguintes) demonstrou que existe uma correlação entre nosso julgamento moral e o nível basal de serotonina em nosso corpo. As pesquisas essencialmente descrevem que, quanto maior for a presença e a metabolização de serotonina em determinado indivíduo, maior será sua relutância em causar dano a outras pessoas (por exemplo, ao agredir ou ao contar mentiras). Na prática, isso significa que a maneira como avaliamos certas decisões morais está diretamente associada ao nosso nível de serotonina no momento.
O que isso significa
Por causa desse fenômeno – e por conta de constatações de que a meditação induz a uma maior produção de serotonina no corpo –, é possível concluir com segurança que há evidências de que a prática regular da meditação leva o indivíduo a desenvolver uma personalidade mais empática e altruísta.
FUNÇÕES COGNITIVAS E PLASTICIDADE CEREBRAL
A meditação aumenta a densidade de massa cinzenta do cérebro humano.
O que se sabe
Um estudo inicial (Luders 2009) demonstrou que o cérebro de certos meditadores profissionais (no caso, com média de 24 anos de experiência) possuía uma densidade de matéria cinzenta muito maior de que aquele de um cidadão comum.
Outro estudo (Hölzel 2011) procurou investigar se tais mudanças também poderiam ocorrer em indivíduos leigos, sem experiência alguma em meditação, em um período de tempo menor. Nessa pesquisa, os cientistas observaram que uma prática regular de 27 minutos por dia, durante 8 semanas, já teria sido suficiente para que o grupo analisado demonstrasse aumento significativo de concentração de massa cinzenta em comparação com o grupo de controle (isto é, que não meditou durante o período).
Em pesquisas semelhantes também se verificou que a meditação produzia alterações estruturais em áreas do cérebro associadas de modo geral a funções cognitivas e emocionais, como, por exemplo, o hipocampo – uma estrutura cerebral relacionada à regulação emocional e ao processamento da memória. Esses estudos são interessantes por demonstrarem que a prática da meditação tem o potencial de impedir ou minimizar a perda de densidade cortical que naturalmente nos ocorre à medida em que envelhecemos.
O que isso signfica
Visto que o hipocampo ocupa um papel importante na estabilidade emocional do ser humano, assume-se, como se argumenta já no referido artigo (Luders 2009), que uma maior concentração de massa cinzenta nessa região se traduza como melhor controle emocional no praticante de meditação.
De maneira similar, uma vez que a degeneração do hipocampo tem relação direta com certas patologias (como Alzheimer, depressão e traumas emocionais crônicos), é plausível concluir que a meditação, devido ao seu efeito tonificador dessa região, contribuiria para o tratamento dessas condições.
A estabilização e a reversão da perda de densidade de massa cinzenta em idosos (outro resultado constatado por pesquisas), por sua vez, tem grande potencial de nos oferecer uma melhor qualidade de vida após ultrapassarmos a meia-idade. Isso porque desordens mentais como demência senil frequentemente ocorrem concomitantemente à degeneração cortical.
Em resumo, há diversos experimentos demonstrando que a meditação promove maior densidade cortical no cérebro humano. Esta, por sua vez, está associada à agilidade mental e à qualidade de nossas funções cognitivas, incluindo memória, resiliência mental, e estabilidade emocional. De maneira inversa, uma maior densidade dessa estrutura neural nos proporciona menores chances de desenvolver condições típicas de uma massa cortical deficiente.
ATENÇÃO, PRESENÇA E AUTONOMIA
O que se sabe
Como mencionado logo acima, há evidências de que a prática contínua de meditação pode levar ao aumento do volume e da densidade de massa cinzenta em diferentes regiões do cérebro, dentre as quais consta o córtex orbitofrontal (Luders 2009).
O que isso signfica
Conforme os próprios autores desse artigo destacam , há uma correlação entre atividade neural nessa região e resistência a reações e comportamentos automatizados. Pessoas que se mostram menos vulneráveis a processos automáticos (agir pela força do hábito) e a vieses cognitivos (preconceitos) tendem a também exibir, comparativamente, maior atividade na face direita de seu córtex orbitofrontal. Estudos posteriores confirmam essa correlação, e demonstram que a prática da meditação efetivamente faz com que os indivíduos cedam menos a associações mentais apressadas (entre caráter, idade e cor de pele, por exemplo).
Em termos práticos, tais observações indicam que a meditação seria capaz de nos libertar de nossas reações automáticas, ou ao menos de delas nos tornar mais conscientes, além de nos oferecer maior autonomia em nossa tomada de decisões. Acredita-se, ainda, que a distinta capacidade de autorregulação emocional demonstrada por meditadores se deva a esses mesmos mecanismos.
CONSCIÊNCIA E CONCENTRAÇÃO
Diferentes estudos demonstraram que o ato de meditar leva o cérebro a gerar padrões alfa e gama de alta frequência. Experimentos também indicam que, quanto maior for a experiência do meditador com a prática, mais rapidamente ele será capaz de evocar esse estado neural.
O que se sabe
A oscilação neural é resultado da atividade rítmica dos impulsos elétricos do sistema nervoso, que ressoam entre si e resultam em frequências específicas. O que chamamos de “oscilação” ou “ondas cerebrais” é a “música” resultante dessa interação. Como os impulsos neurais estão relacionados à nossa atividade mental, as oscilações neurais (alfa, beta, gama, delta e teta) representam, de modo geral, estados mentais específicos.
A sincronização em banda gama, mais precisamente, está associada à consciência e ao processamento cognitivo atento, incluindo em atividades de atenção seletiva, além de possuir um papel importante no aprendizado humano.
O padrão alfa, por sua vez, é evocado em estados de relaxamento consciente – por exemplo, no ato de sentar-se em um sofá e fechar os olhos por algum tempo, ou de caminhar em um jardim durante uma pausa no trabalho. Essa frequência está associada à redução do estresse (sendo este caracterizado pelo padrão de ondas beta) e à atenção ao momento presente. Também se associa a uma dissolução de amarras conceituais (“expectativas” e “pensamento rígido”, efetivamente), o que se traduz, na prática, por maior criatividade, perspectiva, e pensamento lateral.
Estudos também demonstram que o cérebro de um praticante experiente de meditação é capaz de adentrar esses estados de sincronia neural com maior rapidez e facilidade do que um meditador iniciante, por vezes os evocando até mesmo em momento de descanso não-meditativo (algo que, em experimentos, não ocorre nos demais grupos de praticantes analisados).
O que isso significa
Esses dados nos permitem chegar a duas conclusões. Em primeiro lugar, durante a meditação a mente do praticante se encontra em um estado que difere tanto do sono como da vigília. Além disso, por conta de sua atividade predominantemente alfa, esse estado ainda contribui para a redução do estresse do indivíduo, e, devido à sua atividade gama, ele ainda promove um aprimoramento dos processos de aprendizado e memorização do meditador. Por fim, nesse momento o praticante regular de meditação ainda apresenta uma capacidade de concentração e de processamento de informações muito maior, por exemplo, do que lhe seria possível durante um momento normal de trabalho.
Uma outra conclusão positiva a que podemos chegar é que, quanto mais extensa for a experiência de um praticante de meditação, mais facilmente ele será capaz de evocar o estado mental descrito acima, de maneira que, na prática, em seu dia-a-dia ele tenderá a manifestar maior criatividade e concentração do que um leigo, bem como maior resistência ao estresse e à hiperatividade.
NOTA FINAL
Há extensas pesquisas sobre os elementos neurológicos e psicológicos da meditação, e certamente não é interessante ou mesmo possível resumir todas aqui. Os estudos por vezes indicam que diferentes práticas e estados meditativos produzem diferentes efeitos no corpo, e, por esse motivo, procuramos apontar resultados que sejam comuns a todas elas. Apesar disso, é ainda válido evidenciar a importância da sensibilidade, da prática correta, e do conhecimento amplo das diferentes formas em que a meditação pode ser praticada – através de visualizações, de mantras e mudras, de métodos chineses ou tibetanos, e assim por diante.
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