(Artigo inicialmente publicado em 28/8/2017, na versão anterior desta página)
Complementarmente às tradições budistas e taoístas, os filósofos confucionistas mais tardios desenvolveram sua própria interpretação sobre o objetivo e a prática da meditação.
Uma importante diferença dos métodos de meditação confucionistas em relação às demais tradições é sua maior preocupação com a quietude e com o aprendizado. Uma mente tranquila, dizem esses filósofos, é capaz de conduzir investigações científicas com maior eficácia e imparcialidade. Além disso, grande importância também é dada a uma postura mental de “reverência” ética em relação ao universo, o que envolveria a aplicação do conhecimento adquirido no mundo e na sociedade. As tradições confucionistas passaram por diferentes fases ao longo da história, oscilando entre prátias mais religiosas e outras mais seculares, porém seus princípios se mantêm válidos em geral. Para os confucionistas, a meditação deve promover conhecimento e ação na mesma medida.
Esses aspectos vieram a ser considerados duas dimensões essenciais e complementares das meditações confucionistas: a tranquilidade (静) é introspectiva e permite a edificação moral e a preservação da mente do indivíduo, ao passo que a reverência (敬) é extrovertida e requer a “extensão do conhecimento” (至知) – isto é, uma exploração e investigação mental sobre as coisas a fim de determinar princípios teóricos, e a aplicação destes para fins práticos.
Zhu Xi (1130 – 1200 d.C.), importante teórico da meditação confucionista e sintetizador de diferentes métodos dessa tradição filosófica, resume seu método da seguinte maneira:
予作调息箴, 亦是养心一法。盖人心不定者, 其鼻息嘘气常长, 吸气常短, 故须有以调之。鼻数停匀, 则心亦渐定。所谓 “持其志, 无暴其气也”。
箴曰: 鼻端有白, 我其观之, 随时随处, 容与猗移。静极而嘘, 如春沼鱼。动极而吸, 如百虫蛰 […].
“Esta instrução sobre o ajuste da respiração é, também, um método para o cultivo da mente. Quando a mente de uma pessoa se encontra obscurecida e inquieta, sua expiração frequentemente se torna longa e, sua inspiração, curta: por esse motivo, é necessário regulá-la. Se a respiração é pausada e uniforme, a mente também gradualmente adquire resiliência e estabilidade. Isso é o que se quer dizer por ‘administrar o pensamento para não agredir o qi ‘.
A instrução, mais propriamente, diz: ‘Imagino que há uma luz branca na ponta de meu nariz, e eu nela concentro minha atenção. <Isso pode ser feito> a qualquer momento e em qualquer lugar, parado e até mesmo caminhando. De um lado, sob o aspecto da quietude, expiro como peixes nadando em um lago na primavera. De outro, sob o aspecto do movimento, inspiro como uma centena de insetos hibernando no inverno. […]'”
Zhu Xi, “Instrução sobre o ajuste da respiração” (调息箴), Hui’An Ji (晦庵集).
O texto fala sobre um possível método de meditação, envolvendo controle da respiração e concentração suave em um ponto de acupuntura (no caso, o ponto su liao, localizado na ponta do nariz). Zhu Xi associa nosso estado mental à maneira como respiramos e, a partir desse princípio, determina que uma respiração rítmica e suave levaria a mente a se tornar mais “firme” (定).
A palavra 定 é comum em textos antigos sobre meditação, e traz os sentidos de uma mente “estável”, “organizada”, “resiliente” e “apoiada em uma base sólida” – por esse motivo, essa qualidade costuma ser vista como um dos principais benefícios de uma prática de meditação bem realizada.
A ideia central que Zhu Xi defende no texto é a importância da regulação (调) apropriada da respiração para o cultivo de uma mente tranquila e, portanto, mais apta a ver o mundo com clareza.
Esse é um princípio bastante útil para nossa busca moderna por maior qualidade de vida. Conforme o próprio autor diz, podemos utilizar esse método “a qualquer momento e em qualquer lugar”, e a possibilidade de reduzirmos nossa agitação mental no dia-a-dia, mesmo que apenas um pouco, já é em si algo de grande valor.
Referências
Curiosamente, há pesquisas recentes indicando que podemos reduzir nosso estresse, ansiedade e sensação de dor através de nosso ritmo e modo de respiração:
Perciavalle, V. et al. (2017). The Role of Deep Breathing on Stress. Neurological Sciences. 38(3), 451-458.
Vlemincx, E. et al. (2016). A sigh of relief or a sigh to relieve: The psychological and physiological relief effect of deep breaths. Physiology and Behavior. 165, 127-135.
Zannin, E. et al. (2015). Parasympathetic Stimuli on Bronchial and Cardiovascular Systems in Humans. PLOS ONE. 10 (6), e0127697.