Karma coletivo e interdependência

(Artigo inicialmente publicado em 24/11/2016na versão anterior desta página)

A ideia de que todas as coisas estão inter-relacionadas é um dos pilares da ética budista. Reconhecer que nossa vida não existe em um vazio, mas que é em grande parte construída a partir dos outros, é um critério fundamental para pesarmos nossas ações e considerarmos se estamos agindo de maneira produtiva em relação ao mundo.

Se refletirmos um pouco, logo chegamos à conclusão que toda independência é uma ilusão. Tudo o que temos depende do trabalho de outras pessoas, e tudo o que fazemos também afeta o bem estar dos outros. Comida, roupas, remédios – se temos isso, é porque podemos contar com outras pessoas para os produzir. Mesmo o dinheiro e o status, ambos normalmente associados à independência, dependem de outras pessoas para que tenham algum valor.

Para a filosofia budista, essa maneira de pensar está associada ao conceito de “karma”.

“Karma” é um termo do sânscrito (karman) que designa “ação” (ou, em certos casos, “consequência”). Uma tradução simplificada e mais abrangente seria “aquilo que é feito”.

Na verdade, a palavra “karma” compartilha da mesma raiz que o verbo português “criar”: o sânscrito é uma língua irmã do latim e do grego (e portanto tia do português), e a raiz etimológica da palavra “karma” também está presente nas formas latina (creare) e grega (krēnai) do verbo “produzir”. Pensar nas palavras dessa maneira é interessante porque nos mostra alguns aspectos importantes da ideia de karma: toda ação tem uma consequência; toda ação cria algo.

(“Nó sem fim”, representando diferences formas de interdependência)

Então, em sentido técnico, toda ação é um karma. Historicamente, a palavra nada tem a ver com “destino” ou “punição divina”. Quando se diz “karma”, normalmente se está se referindo ao karma individual, isto é: o que eu faço, quais são minhas intenções ao fazer o que faço, e quais são os efeitos dessas ações. A teoria do karma diz que tudo o que fazemos gera consequências, e que são nossas ações e pensamentos que constroem a nossa vida.

Esse conceito é normalmente empregado em relação ao indivíduo e ao esforço pessoal – porém quero, aqui, comentar um pouco sobre o karma coletivo.

Uma sociedade é nada menos do que um grupo de pessoas que compartilha o mesmo espaço. Em outras palavras, a sociedade é a soma das pessoas que vivem nela. O karma coletivo é uma interpretação que diz que, assim como as ações de um indivíduo repercutem em sua vida, também as ações tomadas coletivamente por uma sociedade repercutirão na vida de todos os seus integrantes. Dessa maneira, o karma coletivo depende do karma de cada indivíduo dentro desse grupo de pessoas.

E como isso se aplica na prática?

Em primeiro lugar, precisamos compreender que, assim como a vida humana, nenhuma ação ocorre no vazio – tudo o que fazemos gera alguma consequência. O raciocínio de que “só uma vez não vai afetar ninguém” não existe na filosofia budista. Por exemplo: quando estacionamos o carro em local proibido, pode parecer que não vai fazer diferença alguma. Porém quando muitos fazem a mesma coisa sob essa mesma premissa, mesmo que cada um assim aja uma única vez, isso se torna um problema exponencialmente mais grave.

Vejamos um exemplo: uma pessoa tem o costume de jogar lixo na rua – cigarro, papel, lata de alumínio. Se outras adotam o mesmo hábito, isso significa que há uma parte da sociedade que está agindo da mesma maneira. Esse padrão de comportamento gera o karma coletivo.

Agora, imaginemos que começa a chover. Todo esse lixo que foi colocado na rua passa a entupir bueiros e vias de drenagem. Por esse motivo logo temos uma enchente, que causa danos a casas, comércios, e prejudica a vida de toda a cidade. Esse também é o karma coletivo: a consequência da soma de ações de vários indivíduos dentro de um mesmo grupo.

Imaginemos outro cenário: esse lixo, depositado fora de seu local correto de despejo, atrai animais porque para eles é uma fonte mais acessível de alimento. Pombas, ratos e gambás passam a se reproduzir, e com eles vêm doenças típicas de animais urbanos: pulgas, fungos e viroses. Essas doenças terminam por nos afetar (e também nossos animais de estimação), mas isso, também, é resultado de uma série de ações individuais aparentemente inofensivas, potencializadas por serem adotadas em grupo.

Nisso tudo, muitas vezes um indivídio que nunca jogou lixo na rua é prejudicado pela enchente e pelas doenças. Porém essa pessoa vive em sociedade, e ela está sujeita ao karma dessa sociedade.

Há, evidentemente, outros tipos de karma: familiar ou global, por exemplo. Mesmo sociedades que nunca produziram poluição alguma estão sujeitas aos efeitos do aquecimento global: tal é o karma, – os “resultados”, – das ações de outros membros da comunidade mundial.

Esse é um dos motivos pelos quais a compreensão da interdependência de todas as coisas é importante. Nós nunca estamos sozinhos; estamos sempre afetando o todo, e sempre somos afetados por ele. Da mesma maneira, nossas vidas dependem das vidas dos outros, assim como as vidas destes dependem das nossas.

O karma, contudo, não é apenas algo negativo. Se hoje estamos aqui, usando a tecnologia que usamos e usufruindo dos direitos e dos recursos que temos, é porque esse é o resultado das ações dos nossos antepassados. Mesmo individualmente, no momento em que nossos primeiros pensamentos racionais começam a surgir quando somos crianças, já passamos anos sendo cuidados por nossos pais. Em outras palavras: ainda bebês, mesmo sem nunca termos tomado decisão alguma, já estamos sendo afetados pelo karma benéfico de outras pessoas.

O ponto principal desse raciocínio reside na ideia de que qualquer ação construtiva tomada individualmente repercute na sociedade e contribui para a geração de karma coletivo. Por isso, do mesmo modo como “só um cigarro” na rua faz diferença, é igualmente verdade que “só um bom dia” a um desconhecido também faz.

Da mesma maneira, a vida de nossos descendentes dependerá das ações que tomamos hoje, e por isso o reconhecimento do princípio de interdependência não é apenas algo vazio e puramente teórico. Para o budismo, é um apelo a termos responsabilidade pelas nossas ações, e a nos reconhecermos como uma parte importante e inseparável do mundo.