Epígrafe sobre a Circulação do Qi (行气)

(Artigo inicialmente publicado em 26/8/2017na versão anterior desta página)

Inscrição em Jade Sobre a Circulação do Qi (Xing Qi Yu Pei Ming) é um pequeno artefato arqueológico datado do período Zhou Oriental (770-221 a.C.) que, embora contenha um texto breve, tem imensa importância para a história do Qi Gong, visto que consiste em um dos registros mais antigos descrevendo o fluxo do “qi” e as leis naturais que o regem.

行气, 深则蓄, 蓄则伸, 伸则下, 下则定, 定则固, 固则萌, 萌则长, 长则退, 退则天。 天几舂在上, 地几舂在下。顺则生, 逆则死。

“No que diz respeito à movimentação do qi:
a interiorização leva ao armazenamento,
o armazenamento leva à expansão,
a expansão leva à decantação,
a decantação leva à formação de uma base estável,
o desenvolvimento dessa base leva à solidez,
o surgimento da solidez leva à germinação,
a germinação leva ao crescimento,
o crescimento leva ao recolhimento,
o recolhimento conduz ao <qi> celeste.

qi do Céu se move para cima; o qi da Terra se move para baixo. Seguir <essa lei> leva à manutenção da vida. Agir contra ela leva à morte.”

O texto aborda dois temas: a movimentação do qi na natureza, e o processo de refinamento do qi no corpo humano.

O “qi do céu” e o “qi da terra” correspondem a dois paradigmas de qi – um mais concreto, pesado e rígido, e outro mais sutil, etéreo e maleável. No âmbito do mundo natural, o qi se comporta de certa maneira como a água: quando sutil, tende a ascender; quando denso, precipita-se. Quanto mais sutil, mais se expandirá; quanto mais denso, mais se concentrará em um só local.

A mesma regra vale para o corpo humano, considerado um microcosmo do universo: em uma condição ideal, o qi sutil deverá seguir um movimento ascendente, e o qi denso um movimento descendente. Enfermidades, segundo a medicina chinesa, são em grande parte o resultado de complicações desse processo de circulação: se o que deveria descer não desce, ou se o que deveria subir não sobe, têm-se problemas como vômito, prisão de ventre, insônia, prolapsos, confusão mental, dificuldade de raciocínio, visão turva, má mobilidade das pernas, dores de cabeça, e uma variedade de afecções secundárias.

Essas orientações apresentam um método de meditação que se fundamenta na maneira como o qi flui na natureza, e inclui elementos que indicam inspiração profunda, concentração do pensamento no abdômen, desenvolvimento da “estabilidade” (定, ding, um termo técnico em meditação), obtenção de um estado de pensamento firme e equânime, cultivo deste ao modo de uma planta (outro conceito comum em teoria da meditação), direcionamento da atenção do exterior para o interior, e refinamento do qi, que, por se tornar mais sutil, ascende pelo corpo e nutre a mente do praticante de meditação.

Ao seguirmos e imitarmos a maneira como o qi flui na natureza, agimos de modo harmonioso com nossa vida e, portanto, a preservamos. Agindo contrariamente a isso, desgastamos nossa energia desnecessariamente e, pois, debilitamos nossa saúde.

Embora nossa sociedade possa interpretar a frase final do texto como uma forma de punição divina, a filosofia naturalista chinesa pensa de maneira diferente e a considera uma lei física: agir de acordo com a leis da natureza é algo benéfico não só porque poupamos nossa energia, mas também porque, para tudo o que fazemos, temos o apoio do movimento natural do universo em nossas ações, como se estivessemos navegando a favor da correnteza. Se contrariamos fenômenos imutáveis, contudo, precisamos despender esforço muito maior para obter o mesmo resultado e, invariavelmente, desperdiçamos nossa energia – o que não é desejável.

Artefato em que se encontra
o texto chinês sobre a circulação do 
qi