Diferentes tradições de meditação

(Artigo inicialmente publicado em 25/8/2017na versão anterior desta página)

Em junho escrevi sobre alguns dos efeitos neurológicos da meditação, procurando demonstrar que, longe de ser uma prática puramente mística, o ato de meditar produz resultados concretos e oferece um grande número de benefícios para nossa saúde e nossas atividades do dia-a-dia. Mas o que os antigos dizem sobre essa prática? Apresento, neste e nos artigos seguintes, diferentes perspectivas sobre a meditação encontradas em textos clássicos da China e da Índia.

O que em português chamamos de “meditação” recebeu nomes variados nas culturas orientais: na China, ao menos, temos jing zuozhan zhuangnei yangzuo wangru jingxu wuxing qi e também chan. Essa diversidade de nomes reflete uma diversidade de métodos e objetivos que acaba se perdendo no nosso vocabulário simplificado. É importante compreender que “meditação” é uma palavra bastante ampla, e não imaginar que exista apenas uma única maneira de praticá-la. De maneira bastante superficial, podemos distinguir métodos meditativos da seguinte maneira:

Sentar-se Calmamente
Jing Zuo (
静坐)

A expressão pode ser traduzida por “sentar-se calmamente” e se refere à prática da meditação estática e introspectiva – sem fazer uso de som, movimento ou posturas exigentes tanto no âmbito físico como no mental. Esse termo por vezes é usado de modo abrangente para se classificar uma grande variedade de práticas meditativas e é, também, aquilo que acabou se tornando o estereótipo da meditação no ocidente.

Essa prática foi popularizada sobretudo por filósofos confucionistas a partir do século XII d.C. e reflete a abordagem neoconfucionista da meditação, considerada por essa escola um exercício complementar à saúde e ao desenvolvimento moral e intelectual do indivíduo.

Atenção
Chan/Zen (
)

“Atenção” é um dos métodos de meditação típicos do zen-budismo, caracterizado por disciplina postural e concentração intensa e prolongada em algum objeto (um paradoxo, um conceito, a própria respiração, ou mesmo o momento presente, por exemplo, conforme indicado pelo monge que orienta sua prática).

Ilustração da prática de purificar o coração (Xi Xin Tui Cang, 1615; Wellcome Library)

Purificar o Coração
Xin Zhai (
心斋)

Esse procedimento meditativo está relacionado ao sentido duplo da palavra zhai, que denota tanto “jejum” como também “limpeza”. Um jejum alimentar implica abstinência ou a todo tipo de refeição, ou apenas a especiarias e alimentos fortes que prejudicam nossa apreciação da comida e levam a desordens fisiológicas ou a distorções do nosso apetite e paladar. Jejuns têm a função, portanto, de purificar nossa percepção, de permitir que o corpo se recupere de excessos alimentares, e de promover sua saúde.

Da mesma maneira, o jejum do coração se volta a purificar nosso pensamento por meio do cultivo da unidade da mente (一志), alcançado através da adoção de uma postura mental “vazia”  durante o exercício, isto é: mantendo uma atenção introspectiva e não dando corda aos nossos pensamentos ou às informações oriundas dos sentidos (como sons, imagens, toques e odores).

Sentar e Esquecer
Zuo Wang (
坐忘)

“Sentar e esquecer” é uma meditação típica do taoísmo, e que tem como método o “esquecimento” temporário do corpo, o bloqueio das percepções sensoriais provenientes do exterior, a dissolução de apegos emocionais, e o abandono de conceitos e convenções sociais.

Distanciando-se de fontes internas e externas de estímulos mentais, emocionais e sensoriais, argumentam os teóricos desse método, o indivíduo poderia cessar seu fluxo de pensamentos por alguns momentos e, dessa maneira, restaurar sua energia e atingir a união com o Tao. Essa forma de meditação é mencionada pela primeira vez em Zhuang Zi (por volta do século IV a.C.), sendo posteriormente desenvolvida com maior profundidade no Tratado sobre o Sentar e Esquecer (Zuo Wang Lun), de Si Ma Cheng Zhen (647-735 d.C.).

Compaixão (Maitri/Metta)

Traduzido do sânscrito e do pali por “compaixão”, esse é um método comum nas tradições Theravada e Mahayana do budismo. Nele o praticante dirige seus pensamentos a outras pessoas e continuamente manifesta o desejo de que todos aqueles em que pensa estejam felizes, livres de sofrimento e/ou que cultivem a bondade entre si.

Aquietação e Contemplação
Zhi Guan (
止观)

Traduzido do chinês por “aquietação e contemplação”, esse é um dos principais métodos meditatvos do budismo em geral, abrangendo tanto as ideias de “concentração/desaceleração” (śamatha, em sânscrito) como de “insight/intuição” (vipaśyana).

De acordo com os teóricos dessa forma de meditação, o praticante sintoniza sua atenção em determinado objeto ao mesmo tempo em que procura dissipar pensamentos secundários, almejando, dessa maneira, obter vislumbres de sabedoria acerca dos ensinamentos budistas e sobre a verdadeira realidade do mundo.
Embora fundalmentalmente diferente, esse é o método que deu origem ao que hoje chamamos de meditação mindfulness.

Artefato de jade em que se encontra a descrição desse método de meditação

Mover o Qi; Guiar e Conduzir
Xing Qi e Dao Yin

“Mover o qi” (行气) é um método de meditação terapêutica em que o praticante utiliza seu pensamento para dirigir o qi ao longo de determinados meridianos, ou concentra sua atenção em certos órgãos para tonificar, regular ou dispersar o qi, segundo os princípios da Medicina Tradicional Chinesa.

Essa forma de meditação não é necessariamente realizada sentada e, além disso, pode também incorporar elementos do Dao Yin (“guiar e conduzir”) e incluir movimentos lentos. É uma das formas de meditação mais antigas de que temos registro, sendo descrita pela primeira vez entre 770 a 221 a.C. pela Inscrição de Jade sobre a Circulação do Qi (Xing Qi Yu Pei Ming).

Cultivo Interior
Nei Yang (
内养)

“Cultivo interior” é outra forma de meditação terapêutica, derivada da Medicina Tradicional Chinesa. Seu objetivo principal é o estabelecimento de maior solidez energética no praticante e, para isso, esse método meditativo faz uso conjunto de técnicas de respiração e visualização, derivadas de tradições taoístas e budistas.

Em Pé como um Poste
Zhan Zhuang (
站桩)

“Ficar em pé imóvel como um poste” se refere à prática de meditar em pé, usualmente com os olhos abertos, em uma postura específica e fisicamente exigente. Devido aos seus benefícios adicionais relativos ao resposturamento do indivíduo e à sua consciência corporal, esse método costuma ser bastante apreciado pelas artes marciais chinesas. Diferente do imaginário popular, nem toda meditação é praticada sentada, e o zhan zhuang é um exemplo disso.

Adentrar a Tranquilidade
Ru Jing (
入静)

“Adentrar a tranquilidade” (ou “adentrar um estado de tranquilidade”) não é um método isolado de meditação, mas sim um aspecto meditativo da prática do Qi Gong, também chamado de “estado de qi gong”. Ele diz respeito a um estado mental típico do Qi Gong e de algumas outras artes (como a música ou as artes marciais) no qual o pensamento ocorre mais por consciência sensível/sensorial do que por raciocínio discursivo, e que se manifesta como relaxamento muscular, circulação desimpedida de energia, profunda tranquilidade, e um estado único de clareza, insight e atenção.


Pensei que esse texto seria interessante porque, quando dizemos “meditação”, não estamos expressando toda a riqueza dos métodos que, tradicionalmente, foram considerados possíveis maneiras de se meditar.

Como procurei resumir, a palavra “meditação” está se referindo a práticas muito diversas, provenientes de povos e épocas diferentes, e criadas por motivos diferentes. Vimos que certas formas de meditação podem promover o relaxamento, ou exercitar a mente por meio de visualizações intrincadas; que podem utilizar mantras e outros sons, ou podem ser práticas silenciosas; que podem promover a disciplina ou a espontaneidade, a sensibilidade ou o desprendimento, a interioridade ou a compaixão, a saúde ou a reverência, a compreensão do mundo ou a transcendência deste.

Nos posts seguintes traduzirei alguns textos que revelam mais detalhes sobre algumas dessas tradições.