(Artigo inicialmente publicado em 10/10/2016, na versão anterior desta página)
Uma das maneiras que o pensamento clássico chinês encontrou para descrever nossa relação com o mundo é a interpretação por meio de trigrama (挂):

- A primeira linha, na parte de baixo, representa a terra. Metaforicamente, também representa o aspecto mais material das nossas vidas.
- A terceira linha, na parte de cima, representa o céu e se associa à contraparte mais abstrata da vida humana: o tempo (na dicotomia tempo-espaço), o clima, e o “momento”.
- A linha central representa o ser humano, incluindo a vontade humana e as ações que dela derivam
Essa interpretação é interessante porque nos ajuda a entender, de modo claro, de onde nossa energia se origina.
Para a medicina chinesa existem apenas três fontes de energia para o corpo humano: o Qi do ar (空气), o Qi dos alimentos (谷气), e a Essência (精):

O ar e os alimentos são nossas fontes principais de absorção de energia, e são delas que dependemos para nossas atividades diárias. O ar, por ser imaterial, inexaurível e originado da atmosfera, é apropriadamente associado à parte “céu” do trigrama. Os alimentos, dado que crescem sobre o solo e são formas compactas e concentradas de Qi, são associados à dimensão “terra”.
Porém além destes há também a Essência (Jing, 精), e esta tem uma importante peculiaridade: ela não é renovável. Esse é um tipo de Qi que não é absorvido do exterior, mas apenas herdado dos nossos pais. Ele funciona como uma bateria que apenas se gasta e não pode ser recarregada. Para a medicina oriental, a velhice nada mais é do que o desgaste constante desse tipo de Qi. Em termos ocidentais, ele pode ser comparado com nossa informação genética (também em biologia há a ideia de evelhecimento como degeneração constante do nosso material genético). A Essência se associa à dimensão do “ser humano” no trigrama, visto que é dele que se origina.
Aplicando essa teoria na prática, uma conclusão inicial é que a qualidade desses três tipos de Qi influencia diretamente a qualidade da nossa energia geral. Isso pode ser usado em nosso favor: se respiramos e nos alimentamos bem, estamos absorvendo energia de qualidade (“positiva”). Além disso, se nossa digestão e nosso sistema respiratório estão funcionando bem, podemos aproveitar ainda mais essas duas formas de Qi. Quer dizer: há duas instâncias nesse processo de captação de energia:

O contrário também é verdadeiro. Uma alimentação imprópria e um ar poluído podem até nos satisfazer, porém eles exigem grande esforço do corpo para que sejam transformados em energia útil. Quer dizer: absorvemos energia, mas também gastamos energia por causa desse processo. O resultado é que ficamos sempre cansados, mesmo sem termos feito esforço algum. Nisso, também, há paralelos com a medicina ocidental.
O mesmo vale para nossos sistemas internos: se temos problemas respiratórios, fica mais difícil absorver e transformar o ar em Qi útil. E se nossa digestão não funciona direito, também não absorvemos tantos nutrientes como poderíamos de nossa alimentação. O resultado é o mesmo: ficamos sem fôlego, respiramos mais superficialmente, comemos mais, os músculos se cansam mais rapidamente por falta de sangue e de oxigênio, o cérebro não recebe os nutrientes que precisa, ficamos com a mente confusa, e assim por diante.
Há, ainda, um último fato importante: se estamos vivos, estamos usando energia.
Por isso, se respiramos mal, se dormimos mal e se não nos alimentamos direito, nosso corpo é forçado a encontrar uma fonte alternativa de Qi. Nesse caso, ele passa a usar diretamente a Essência (精), associada à vitalidade humana.
Para a medicina tradicional chinesa, o uso dessa “reserva” é um grande problema porque, como disse, nosso Qi Essencial não pode ser recarregado. Quanto mais o gastamos, pior será nossa saúde e mais rapidamente envelheceremos. Além disso, excessos de qualquer tipo também agravam o consumo desse tipo de Qi: não dormir, não descansar, trabalhar em excesso, ter um estilo de vida sedentário, ficar doente, ou abusar de álcool ou de outras substâncias.
Esse é um dos principais motivos pelos quais a saúde é importante. Quando nosso corpo está funcionando bem, podemos absorver e processar a energia que precisamos sem termos que recorrer à nossa reserva de Qi Essencial. A prática de Qi Gong nos ajuda extraordinariamente nesse sentido, pois ela equilibra o funcionamento dos nossos órgãos, melhora nossa capacidade respiratória, e nos permite conservar essa vitalidade por mais tempo.
Essa é uma interpretação interessante das fontes da nossa energia, pois ela mostra como o ser humano está efetivamente integrado à natureza. Se pararmos para pensar, ela implica que, não importa onde estejamos, sempre teremos – literalmente – uma parte do céu e da terra dentro de nós.
Pequeno texto relacionado:
“<O imperador diz:> “Eu gostaria de saber qual é a relação <da medicina> com a natureza, para que eu possa a ensinar às gerações futuras […]. Pois se ela é capaz de estar em harmonia com o cosmos, é certamente porque ela lida com inícios e fins: Acima, quero saber como encontra correspondência com o céu e as estrelas. Abaixo, como encontra correspondência com as quatro estações e os cinco elementos. Quero saber sobre outros tipos de fenômenos que também surgem e partem em ciclos, sobre o Yin do inverno e o Yang do verão.
Como o ser humano se relaciona com tudo isso? Gostaria de saber qual é o raciocínio por trás disso.”
O médico Qi Bo responde: “Você me faz uma pergunta excelente! Ela diz respeito ao funcionamento do céu e da terra por meio de princípios matemáticos.”
O imperador diz: “Então eu gostaria de conhecer essa mecânica, e como aplicá-la ao corpo humano, à circulação de Qi e de sangue, e aos processos da vida e da morte.”
O médico Qi Bo diz: “No que diz respeito aos princípios numéricos do céu e da terra, tudo começa no 1 e tudo termina no 9. Quer dizer: o número 1 representa o Céu, o 2 representa a Terra, e o 3 representa o ser humano. Cada um interage com os demais, e por isso o total sempre é 9.”
余願聞要道,以屬子孫,[…] 令合天道,必有終始,上應天光星辰歷紀,下副四時五行,貴賤更互,冬陰夏陽,以人應之奈何,願聞其方。
歧伯對曰:妙乎哉問也!此天地之至數。
帝曰:願聞天地之至數,合於人形,血氣通,決死生,為之奈何。
歧伯曰:天地之至數,始於一,終於九焉。一者天,二者地,三者人,因而三之,三三者九.
(Nei Jing 1.20; tradução baseada na versão de Maoshing Ni)