(Artigo inicialmente publicado em 19/09/2016, na versão anterior desta página)
No pensamento tradicional chinês, nossas emoções são classificadas de acordo com cinco arquétipos de energia – ou cinco tipos de paradigma energético: Madeira (木), Fogo (火), Terra (土), Metal (金) e Água (水). Uma tabela popular, com associações arquetípicas, é esta aqui:

A tabela mostra duas dimensões da nossa psicologia: Emoção é aqui uma abreviação de emoção patológica, isto é, uma emoção que afeta mais diretamente um dos cinco sistemas, ou cuja manifestação contínua é sintoma de um sistema doente (por exemplo, irritação constante indica problemas no sistema do Fígado). Já Mente é uma abreviação de faculdade mental, e indica diferentes aspectos da mente humana.
As emoções e as faculdades mentais estão intimamente correlacionadas, e embora estejam colocadas em categorias diferentes, elas são, na verdade, apenas dimensões diferentes do mesmo arquétipo de Qi.

É interessante que, em nossa cultura, uma dúvida recorrente é: “então precisamos fortalecer a energia do Fogo e diminuir a do Metal? Para que tenhamos mais alegria e menos tristeza?”. Isso acontece porque somos ensinados que a tristeza deve ser eliminada e que, quanto mais prazer temos, melhor.
Na cultura ocidental, acreditamos que algumas emoções são sempre boas e outras sempre ruins. Já no pensamento médico chinês, o que importa não é a emoção em si, mas sim seu estado em relação às demais – nenhuma delas é positiva ou negativa em si mesma.
Isso porque, de acordo com a medicina tradicional chinesa, “saúde” é o mesmo que “harmonia”, e a harmonia depende do equilíbrio entre partes diferentes. Por isso se diz: O estado ideal do corpo é o equilíbrio, isto é, quando nenhum elemento é mais forte ou mais fraco do que os outros.
Na prática, isso implica, em primeiro lugar, compreender o Qi característico de cada emoção e, em seguida, procurar mantê-lo em equilíbrio em relação às demais. Vejamos uma por uma:

No elemento Fogo, têm-se a emoção “excitação” ou “prazer” (喜). A excitação engloba diversão, alegria e prazer em todos os seus sentidos, isto é: tanto, mentais (como ouvir uma piada e receber boas notícias) como físicos (tal como o clímax sexual).
Essa emoção é uma parte importante da vida, porém em excesso ela se torna patológica (喜傷心): pode se manifestar como euforia, mania, delírio, inquietação e ansiedade extrema.
Porém uma deficiência de Fogo também é indesejável. Pouca diversão e pouca excitação levam, muito facilmente, à desesperança e à perda da vontade de viver. As expressões populares “morrer de tristeza” e “morrer de desgosto” se referem a condições reais, e reconhecidas, por exemplo, pela Associação Americana do Coração. Estima-se, também, que a apatia crônica possa levar à degeneração cerebral.
Esses fenômenos energéticos descritos pela medicina chinesa são em parte comprovados neurologicamente: a excitação excessiva reduz temporariamente nossa sensibilidade à dopamina, neurotransmissor ligado à sensação de prazer, e nos leva a transtornos de ansiedade, déficit de atenção, e perda de motivação, por exemplo. Mesmo quando claramente positiva (como em um casamento), a excitação também é considerada uma forma de estresse, e sujeita o corpo aos mesmos processos fisiológicos.

A Terra se associa ao pensamento e ao raciocínio. A capacidade de pensar rapidamente e lidar com várias coisas ao mesmo tempo demonstra que um indivíduo tem esse Qi em bom estado.
Daí alguém poderia pensar: “Mas o raciocínio não é bom? A gente não deveria querer mais disso?” O foco deve ser não em mais, mas em melhor. Em termos de medicina tradicional chinesa, o pensamento em excesso é nada menos do que obsessão. O Qi da Terra tem a função de transporte e transformação; em excesso, vê-se pensamentos obsessivos, inflexibilidade mental, preocupação, e dificuldade em mudar de ideia – ou seja, incapacidade de “transportar”, “transformar”, e “digerir” pensamentos (a Terra também tem relação com o sistema digestivo).
Em deficiência ocorre o oposto, isto é, uma incapacidade de pensar: ter dificuldade de raciocínio, “brancos” mentais, e esquecer o que estava falando. Em outras palavras: se o excesso é um “grude teimoso”, a deficiência é uma “incapacidade de segurar”.

O Metal está associado ao outono, ao entardecer, e à maturidade. A ideia por trás desse elemento diz respeito aos “resultados ou a experiência gerados pela introspecção após um período de atividade” (o outono era o período de colheita na China antiga). A emoção relacionada ao Metal é a tristeza, e sua faculdade mental é a introspecção. Elas não só são emoções construtivas, como também são necessárias: sem introspecção, não há experiência; isto é: sem parar e pensar no que aconteceu, no que foi feito, não podemos aprender e gerar conhecimento (ou encerramento emocional; “closure”) – lembremos que a analogia tradicional é a colheita, e de nada adianta plantar se não se colhe depois. Como o Metal também tem relação com nosso senso de individualidade, esse tipo de Qi também está diretamente associado à autoestima da pessoa.
O excesso de introspecção é, como poderíamos esperar, algo ruim: residir no passado (por exemplo, por remorso ou luto crônicos) ou ter uma conduta demasiadamente introspectiva não são condições ideais. De certa forma, o egocentrismo e o narcisismo também são excessos de Qi do Metal, visto que consistem em um foco excessivo na própria pessoa.
Pouca introspecção também não é ideal. A recusa em olhar honestamente para si mesmo é um problema emocional comum, assim como evitar olhar para o passado e aprender com ele. Em relação ao senso de individualidade, uma deficiência no elemento Metal também se manifesta como baixa autoestima, vitimização, e dificuldade em externalizar sentimentos e opiniões (não por falta de raciocínio, mas por dificuldade de expressão).

A Água está associada ao medo. Também nisso há confusão: “mas o medo não é ruim?”. Na verdade, nossa espécie só sobreviveu por tanto tempo por causa do medo. Um animal que não tem medo não foge quando o predador aparece, não protege seus filhotes, e não olha onde está pisando. O medo, em equilíbrio, é necessário. Nesse caso, a emoção correta seria o sentimento moderado de preservação (de si, da sua família, e das suas posses).
Em excesso, obviamente, o medo é incapacitante. Ele leva as pessoas a evitarem agir e falar, o que as deixa figurativamente confinadas. Mas, quando ausente, ele causa ainda mais problemas. Pense em quantas encrencas alguém alcoolizado se coloca porque perde a noção do perigo? O sentimento de invulnerabilidade é uma manifestação da ausência dessa emoção. Por fim, a deficiência da Água é um componente importante em desordens complexas como ataques de pânico e transtornos de estresse pós-traumático.
A faculdade mental relacionada à Água é a força de vontade. Ela determina nossa resiliência e perseverança. Começar projetos e não os terminar, desencorajar-se facilmente, ou sempre desistir de alguma tarefa, são exemplos de deficiência de Qi da Água. Persistir no mesmo caminho apesar da dor, desconforto e dificuldades é um exemplo de um Qi da Água saudável.
É interessante que, na cultura chinesa, o símbolo da perseverança não é a pedra ou a montanha (que duram para sempre), mas sim a água, que, apesar de fraca e ordinária, vence obstáculos por meio de sua insistência e sua maleabilidade.

A Madeira é mais bem representada pelo vento: quando equilibrada, ela é suave e carinhosa e coloca o mundo em movimento. Em excesso, é extremamente destrutiva. Em sua ausência, sementes não se espalham, ideias novas não crescem, a cultura não se desenvolve, e o Qi se torna estagnado. A liberdade de movimento, de pensamento e de expressão são fundamentais para a saúde desse elemento. Frustrações e impedimentos o prejudicam (sejam essas restrições externas ou internas, reais ou imaginadas).
Quando equilibrada, a Madeira é decisiva e resoluta, tem senso de propósito e uma direção definida a seguir. Em excesso, leva à irritabilidade, à raiva e à violência (dado que o autoritarismo é apenas a imposição das próprias decisões a outros). Em deficiência, manifesta-se como falta de motivação, incapacidade de tomar a iniciativa, medo de tomar decisões, e uma sensação de estar perdido na vida.
Os aspectos mentais da Madeira são a abstração e a criatividade (isto é, “viajar com a mente”). Fazer planos, desejar conhecer lugares novos, e ver coisas diferentes são atitudes que se enquadram nisso. Quando saudável, o indivíduo é criativo e aberto a novidades. Quando o Qi da Madeira está estagnado, tem-se a mente fechada, dificuldade de abstração, e pouco interesse em mudanças. Quando lhe falta estrutura energética – uma raiz –, essa faculdade mental leva a fantasias, sonhar acordado, excesso de planos que nunca saem do papel, e uma atitude geral de não ter o pé no chão.
Pode parecer contraditório comparar as emoções (raiva) e as faculdades mentais (abstração) da Madeira desse modo, porém elas estão de fato correlacionadas: ambas dependem da liberdade de alguma maneira. Quanto mais frustração o indivíduo sente, mais estagnado estará seu Qi da Madeira, e mais agressivo ele se tornará. De modo similar, sem um fundamento energético que ancore esse Qi, a mente tenderá a flutuar e se distanciar do chão. Inversamente, mesmo que sua raiz seja forte, se a árvore for fraca ou estiver confinada em um espaço pequeno, ela não florescerá e tampouco esparalhá sementes muito longe.
Para resumir, como aplicar isso tudo no dia a dia?
O Metal nos diz: a pausa e a reflexão são importantes. Encare seu próprio passado e aprenda com ele, porém também reconheça que ele já passou e não deve ser revivido repetidamente em detrimento do presente. Além disso, durma bem. Até a neurociência tem paralelos com essa recomendação: você aprende mais estudando pouco e dormindo bem do que estudando a noite toda e dormindo mal. Sem um sono de qualidade, o cérebro simplesmente não é capaz, quimicamente, de absorver certas informações. E, por fim, reconheça e respeite seu valor como indivíduo, com honestidade, sem inflar ou diminuir nada. Conheça a si mesmo e se valorize enquanto pessoa.
Trate o Fogo como fogo: se for pouco, não esquentará o bastante; se for excessivo consumirá sua mente. O fogo, assim como a diversão e a excitação, deve ser suficiente para deixar o ambiente confortável – pense em uma lareira. Evite a excitação excessiva: aqui também conta estimulação por televisão, barulhos, e distrações em geral – incluindo o telefone celular.
Quanto à Terra, podemos dizer: saiba quando guardar e quando passar adiante. O pensamento só é saudável quando ele flui de um ponto para outro (tal como o trânsito) ou é transformado (tal como a digestão de alimentos), e manter-se sempre preocupado com a mesma coisa gera desarmonia do Qi da Terra. De igual maneira, não deixe os pensamentos fugirem: mantenha a ordem e pense as coisas com começo, meio e fim.
A Água destaca o valor da preservação e do acúmulo. A conservação é necessária se queremos chegar longe em nossos objetivos – seja em uma maratona, seja em uma empresa, seja na vida. Isso implica não só preservar nossa saúde e nosso Qi, evitando desperdícios, mas também nos mantermos até o fim no mesmo caminho em que nos propomos, sem desistir ou buscar desculpas. Em termos mais concretos, também significa administrar corretamente nossos recursos (inclusive financeiros), de maneira que possamos sobreviver confortavelmente a períodos difíceis (que, como o inverno e as metafóricas meias-noites, invarialmente surgem na vida). Para promover essa poupança e essa resiliência, cultivar a força de vontade é necessário.
Já a Madeira pede que se valorizem os inícios e que se considerem as ramificações de nossas ações no longo prazo. Todo semear é uma aposta no futuro, e todo novo projeto pensa no que ainda é desconhecido, e para esses dois casos se exige certa imaginação. O Qi da Madeira também preza o conceito de liberdade (ou melhor, a “ausência de obstrução”) – tanto a de nós mesmos, como a dos outros –, assim como preza o fluir desimpedido. Mudanças abruptas ou impedimentos dramáticos são, em termos energéticos, uma violência, e devemos procurar amenizá-las o quanto pudermos (por exemplo, cuidando da esposa após o parto, ou tendo compreensão quando o cônjuge perde o emprego). Esse paradigma de Qi também sugere que, na medida do possível, nossas interações com o mundo sejam firmes, porém suaves; pragmáticas, porém criativas.
Texto relacionado: "O que se localiza em cada um dos sistemas do corpo? O Coração retém a consciência, o Pulmão retém o Po [i.e. individualidade e “alma material”], o Fígado retém o Hun [i.e. abstração e “alma espiritual”], o Baço-Pâncreas retém o pensamento, os Rins retêm a força de vontade. É isso que se diz estar localizado nos cinco sistemas do corpo." 藏所藏: 心藏神, 肺藏魄, 肝藏魂, 脾藏意, 腎藏志, 是謂五藏所藏。 (Nei Jing 1.23)